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.afeto
levar mobília prédio acima não me era uma atividade rotineira. mas havia um certo prazer no esforço, que eu não dava muita atenção ao que ela dizia quando me alertava do peso da madeira maciça. depois da tarefa, só lhe faltava organizar sua estante, mas eu não a deixava. deitado sobre seu colo, dava-me a imaginar seus livros.
“que sente, agora que descansa?”, harmonizando o breve silêncio…
“ombros doloridos, pescoço latejante, espasmos nas pernas. enquanto o peso do peito esvanecer, nem fraturas me abalarão… como se as coisas certas estivessem em ordem. e meu mundo é glorioso, mas de curta extensão… envolve… você.”
“não pensa nos possíveis efeitos de suas afirmações? sabe, sempre me colidem suas palavras de tal forma que me parece preferir meu silêncio em desconcerto a alguma forma de interação entre nós, dois seres humanos livres…”
“sinto o seu desconcerto como a mais bela declaração de sua humanidade… ruboriza, vira os olhos e, assim, minhas elucubrações não a põem num pedestal, se tornam sátiras… o que você nunca nota é que eu vivo num constante estado de desconcerto frente a você. em minhas palavras de subterfúgio, arrumo tempo para juntar cada caco de subjetividade que seus trejeitos me tiram do lugar… gosto de pensar que, assim, cruzo os limites de nossa interação. é uma secular e nada pudica profissão de fé… de qualquer forma, eu ‘itero’ que nunca foi de deixar-se constranger facilmente. aliás, sua força muito me fascina…”
“mesmo que eu tenha por vezes de fugir de mim, do tal do estado de normalidade?”
“eu diria, se concordasse com isso, que aos fortes não devem ser dados apenas os privilégios. devem precisar do fôlego para a resistir a si mesmo. mesmo que haja ao forte tal necessidade, nunca deixou de ser você (soa até como se sua normalidade já não fosse maluca…). ainda caminha serena… ‘num leve sorriso, me aceita como sou-’” e interrompe
“‘em toques ousados… manobra os desconcertos, e o tomo pra mim’… são suas belas palavras. e gosta, além dos ares, dos toques?”
eu provocava… “não há toques… não há toque” fingindo uma cama-de-gato. “se pensarmos que o contato com o outro nunca é capaz de realmente alcançar os limites das subjetividades… que as pessoas interpretam não mais do que sinais, impulsos elétricos… tudo é estímulo… sempre há uma distância entre os corpos… o contato é outra coisa. mas você… você me toca sem me olhar, sem me ouvir. e eu sei como enganar o mero tato… já a fiz parte de mim. o que sente, eu sinto…”
“é?” ria, e vi que se intrigava com o mélange de ciência de botequim e sentimentos, tudo imbuído dum espírito nova era… e me quis dizer Como engana o corpo
peguei sua mão, coloquei-a contra a minha. “sinta… onde termino eu, onde começa você?” brinquei…
dela escapa um breve sorriso de reprovação… ”incrível como me provoca com uma pequena ilusão táctil…”
“mas tudo isso existe… essa perda de limites… e a tal pequena ilusão é capaz de torná-la real. assim, fez a minha história…”
“tudo isso por ainda não termos trepado hoje?”, e eu soube Sua profanação sempre vem na hora certa
“e me vê de tal forma inseguro, bajulador? digo porque descanso… não deixa escolhas se me toma em seu colo… isso é afeto.”
um cafuné continuava… plein des regards… aos toques suaves, ela corrigia Isso é afeto