o destino de meu desejo é o fundo da lata de lixo
voltando a velha casa, faço como se uma fagulha acendesse subitamente num golpe de azar. a minha recusa sistemática de me voltar a uma reflexão desse golpe que me afastou da rotina precatória de minha vida foi vencida num simples golpe de azar, só que a repetição de minha história já não tem mais cara de farsa, me soa ofensa pessoal, palhaçada. devo deixar o exercício da reflexão ressoar aqui…
eu não queria que a história assim ocorresse. dane-se a história escrita, pois eu a senti! carrego todos os fardos daquilo que deixou de acontecer e dá morte de todos os possíveis futuros! eu vivi e fiz a minha história, e ela volta a me bater na cara! a crueldade pedagógica do real amarga a vida e o peito, contorna uma couraça na pele sensível e na alma ingênua. faz do bom moço um velho cretino.
mas o que fazer quando você se sente incapaz de ser um filho da puta?
a vida quer me mostrar que não tomei tapas o bastante. quer drenar meu desejo de vida pra que eu possa lidar com a insensatez de minhas sensações.
eu já devia ter previsto isso. sou eu quem diz “agora não” para a vida, então.
não quero mais nada.
Llaneza, de Borges
Llaneza
Jorge Luis Borges (Argentina, 1899-1986)
A Haydée Lange
Se abre la verja del jardín
con la docilidad de la página
que una frecuente devoción interroga
y adentro las miradas
no precisan fijarse en los objetos
que ya están cabalmente en la memoria.
Conozco las costumbres y las almas
y ese dialecto de alusiones
que toda agrupación humana va urdiendo.
No necesito hablarni mentir privilegios;
bien me conocen quienes aquí me rodean,
bien saben mis congojas y mi flaqueza.
Eso es alcanzar lo más alto,
lo que tal vez nos dará el Cielo:
no admiraciones ni victorias
sino sencillamente ser admitidos
como parte de una Realidad innegable,
como las piedras y los árboles.
como leonard
como leonard afirma escrever o texto
fecha a mente e olha para o que tem dentro… deixa-se acompanhar o caminhar, só de brinquedo.
quanto medo das palavras…
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eu sempre volto àquela primeira vez em que vi *l*. não volto nada, eu não volto nada… eu roubo, e finjo saber dizer que dessas coisas entendo, quando nunca amei de fato mais do que a idéia do romance. e quando os longos arranjos se conjugam em notáveis traços de personalidade voltada ao bom cultivo do afeto, o floreio maneja bem os vazios de alma. não se deixa arrefecer em desagravos. tão apaixonado pela idéia de amor…
abre o coração num pobre alfarrábio.
II.
não posso, não pude, não poderei. que inferno do poeta em contratempo, capitalismo anti-ciclo, e minhas costas doem…
tão fácil seria se as coisas que devemos realizar fossem apenas das tarefas mecânicas. já está em cada homem responder naturalmente a estímulos, se assim normal o for, se assim comumente habituado - detesto tal sensação de trapacear com palavras, mas a natureza, por mais que nos oponhamos a ela enquanto nossos critérios embaçam a vista, nos habita -, mas não é questão. nem o tino criador que tira cupins de seus ninhos e faz nuvens chorar com prata é capaz de responder àquilo que falo. e se há a necessidade, toda ela, enquanto que nos move, é só um desenrolar de nosso tempo – e a forma como o matamos nos permite julgar o caráter de cada um. o fazer enquanto alívio do espírito – sendo espírito o que não é corpo apenas, mas a plasmática entidade que porventura representa aquilo que entendemos por sujeito, individualidade, discernimentos, julgamentos e vozes na cabeça – nos liga ao que está fora de nós. toda a ação humana, enquanto responde a seus anseios mais biológicos, aparenta capturar do externo para si, alimento. mas o que anseia o espírito que não ligar-se com o externo, tornar-se parte do todo? quando a dimensão social se compõe de tudo aquilo que não é cada um de nós individualmente, mas que nos conforma, ela nos dá todos os meios de a ela nos ligarmos. e são todos dela. tudo que torna a nós enquanto alimento ao espírito, em aparência, retorna ao seu crivo enquanto reação. o fazemos com os meios?
só tenho isso, para durar. resistir ao que me fazem fazer… e nisso sou excelente.
não consigo fazer nada.
I.
engraçado é que a volta, sempre pelo mesmo caminho, nunca me foi apercebida como o mero inverso da ida. e naquelas ruas esburacadas, os aclives sempre eram mais sufocantes. aclives em noite, declives em dia. exatamente aquele trecho, a mesma rua. como se houvesse tempo de entortar o traçado, afunilar a via. foi preciso que interrompessem o fluxo, num dia de obras, para que, na espera por passar, na distinção do bloqueio, eu sentisse a semelhança de algo que se me despede todos os dias, sem que eu olhasse para trás. nunca.
caminho mal-tratado, mas são sempre as ruas mais tortuosas que dispõem das vizinhanças mais harmônicas. traço da aversão à imposição de formas puras, ou certa indisposição aos gastos da violência do mundo das idéias, fato é que tudo aparenta natural. natural como a natureza é também suja e feia e violenta melodiosa continuidade de rotinas sincrônicas de vidas que passam. e tal como ela, procede impondo obstáculos, e não nos deixa acomodar. é como um transpor constante, que derruba velhinhas de andador. e não há quem não reconheça, indisposto, a beleza da educação por costume. dos degraus tortos de cada puxadinho em reprodução contínua e desordenada, se tira força da qual nunca pode o comum prescindir.
sob a pena de se tornar dormente. ferrolho.
resignação
eu tentei parar de cultivar aqueles pensamentos de derrota antes de começar a me sentir em fracasso. eu comecei a ver o que seria minha vida daqui pra frente… estava em todos eles. todos aqueles homens e mulheres. estava na rotina quase automática de minhas tarefas. estava no pesar de certas confissões escorregadas por entre comentários maldosos.
é notável o passado de alguns. seus talentos, natos ou por mérito. no entanto, me desmotivam por completo ao concluir a fábula da vocação com a desilusão que o amadorismo trás. longe de serem alguém que não sabe o que faz, o que quer, são simplesmente pessoas resignadas. eu lia, com muito medo, minha história nos relatos de uma jovem de vinte e dois anos, potencial historiadora pela universidade de são paulo, que da prisão que quase ocorre por contade sua ousadia e militância de estudante em períodos sombrios escapa a fim de prender a si, numa vida decidida a aceitar sua sina. temos de nos bancar. quando entro, ela está a quase sair… morte que bate a porta.
gagos, escorrimentos, mastectomias, um prego no braço. tenho meu passado de cardíaco.
quando pequeno, eu tive a impressão, por um tempo, de que meu coração ficava na cabeça, protegido pelo crânio. devia ter um forte latejamento. as dores do abandono envolviam-me em terríveis enxaquecas. mas eu sentia uma certa vida em experimentar as sensações taquicárdicas.
não sinto vontade de mais nada.
vitória.
- é vitória o que se sente quando se termina bem um dia no qual não se esperava passar por uma disputa?
- hm… mas a vitória teria de ser planejada para ser uma vitória? pensa no seu inimigo como alguém que subitamente se torna o inimigo. é ainda mais grandiosa uma vitória que nasce sem o passo de impulso, apenas do reflexo.
- nenhum inimigo me atacou hoje. contra nada lutei.
- simplesmente ganhou?
- é. ganhei.
derrotou seu no ego no café-da-manhã.
.excertos
perdi meu avô há quinze anos, ou próximo disso. já não mais recordo quando. eu era muito novo, e hoje não cultivo imagens dele. sua voz também se foi. ele me restou como um conceito, pois tenho de acreditar que existiu para que eu tivesse um pai, e em historietas. do dia de sua morte, lembro-me da serenidade do rosto de meu outro avô – esse sim, eterno -, e da dificuldade de derrotar Shang Tsung em Mortal Kombat. não me deixaram visitá-lo em seu velório. o velho fora derrubado pelo coração, na fila do banco. nunca fui a sua lápide.
essa é minha única perda. não fez falta.
ramos de qualquer coisa. tinha nome sóbrio, algo como Heitor. foi comerciante, dono de uma prquena mercearia, mas quando velho tinha perdido tudo. dependia da aposentadoria da esposa, que tinha sido enfermeira do Estado, já que nunca acertou suas pendências com a Previdência. perdeu os prazos para recursos. na época, não dava pra contratar advogados que entrassem com pedidos forjados de benefícios, cobrando os primeiros quatro meses como ‘honorário’.
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me diziam que o velho sempre aparentava estar abatido. há um certo sofrimento que deve ser inerente a velhice, ao caminhar para o abismo, que me deixa quase histérico frente aqueles que afirmam da grandeza e maturidade dessa fase na vida. é muito fácil sentir-se maduro e resolvido quando, sentado numa bergère de camurça, olha-se ao redor para encontrar uma animada corrida de belos netinhos, e a conversa na sala entre a esposa e a nora, bela arquiteta casada com o filho publicitário. tudo termina como Doriana, sem que ninguém lembre que o excesso de gordura, mesmo vegetal, mata.
toma a atenção dum velho rabugento obrigado a começar do zero no fim de sua vida e faça-o olhar para trás. é quase eutanásia! não deixa de ser marcante nessa nova série de documetários à la Michael Moore as histórias dramáticas de gente que de súbito vê toda a sua história se esfacelar em questão de dias, às vezes menos. costumam ser boas pessoas. falta de faro para negócios? talvez, mas nem todos podem ser grandes empreendedores.
sem memória, é difícil falar dele. mas é fato que sua morte me afetou, pois tomou de baque a todos aqueles que me criaram.
ranço.
ando recebendo e-mails dum norte-americano que se diz ter encontrado a fórmula perfeita se conquistar mulheres. não acho que seja essa uma verdadeira questão, mas realmente me incomoda ver semelhanças entre suas teorias sobre seu comportamento e a minha realidade.
é extremamente perturbador o fato de que em termos afetivos, as pessoas portam-se como se estivessem em uma disputa. eu nunca tive estômago para nada disso, e sei que disso advém também minha fobia a competições de uma forma geral. antes de sequer levar em consideração a necessidade de participar, eu já desclassifico a modalidade e me ausento. não deve ser diferente no campo afetivo.
o che já chegou a me repetir algumas vezes. devia praticar pra depois arriscar alto com o faz. mas nada disso me está em cogitação. só digo que é horrível a sensação de disputar consigo mesmo a torto e direito o instinto de tomar algo de assalto ou calar-se em eternos ‘e-ses’.
mulher é coisa extremamente preocupante. certa feita eu me sentava com algumas delas – que certamente mais me têm como ser assexuado que sou, quando o que eu buscava no máximo era passar um ar de desapego, despreocupaçao (culpo os gays por isso…) – e diziam da petulância dum babaca que fazia questão de se afirmar como o melhor partido de sua turma de mestrado. ai, como é ótimo então ouvir todas reunidas pensando em termos possíveis e cabíveis a situação de ousadia. e viram a mim pra perguntar ‘mas o que acha dum cara que fala coisas assim?’ dias antes, outra delas morria de sensações pelo cara, e nem uma fragrância perdida pela Peixoto Gomide escapa da lembrança de sua imagem. e repete, repete, de forma que até mesmo suas colegas já automatizam os comentários, e a irritação. é parte da esquizofrenia feminina detestar os petulantes enquanto são incapazes de resistir a eles. e aqueles que se julgavam capazes de compreender o motivo da permanente insatisfação feminina, semelhante aos ciclos de Kondratieff, sofrem com crises terminais por não serem capazes de perceber que a fase irracional não é a patologia, e sim o seu estado de normalidade.
ao retratar os homens como serem brutamontes e insensíveis, dão-nos a impressão de que são capazes de assumir tal comportamento maduro que basta que sigamos suas ‘orientações’ e estamos fadados a encontrar alguma felicidade. mas tudo o que reclamam faltar nos homens apenas é atributo exacerbado na posição de dominação a qual preferem se submeter. é claro que a submissão assume um padrão extremamente complexo e um tanto dúbio com o tempo, mas de início, desde que levemos em conta alguns limites, são apenas dirigidas sobre um amplo espectro. tudo o que buscam, na verdade, é exatamente aquilo que é quase inerente ao comportamento bruto do homem. é a arrogância, a petulância e um certo descaso. sensação permanente de dúvida quanto ao seu valor. é insegurança. invulnerabilidade no outro e vulnerabilidade em si.
eu não tenho saco para isso. é-me insuportável que as pessoas não se tenham por iguais. é-me insuportável não existir a cogitação de fragilidade. é-me insuportável as aparências desse jogo de espelhos.
pensava na resposta a pergunta. ’sendo muito pragmático, o cara é um gênio. afinal, haveria caminho mais rápido para a mente e o cu de uma garota do que com a petulância? o poder dá sugestão é fatal.’
livro.
‘vai começar a segunda-feira sem nem um banho?’
começava, pois, a segunda-feira com um belo esporro. soam como se fossem comentários singelos, mas, nos momentos certos, a crueldade de afirmações que categoricamente destituem-nos por completo de qualquer lugar de valor na sociedade. já nem conto mais quantas vezes tive de ouvir coisas que se assemelham a ‘você não tem jeito’. sinceramente, não creio mais escutá-las, de tal forma que ficam apenas as dores posteriores e as imagens que se formam nos olhares de reprovação.
pensei ’e banho lava a consciência?’ nunca poderia dizer algo com esse conteúdo e sair de casa incólume. e, como ela custava me afirmar, já estava atrasado. engraçado, nunca sequer tomou esta rota na vida, e tem a ousadia de me dizer que já estou atrasado. tá certo que não tenho mais do que uma semana de experiência das idas, mas uma semana frente a zero, por mais sábia que seja com relação aos horários e a loucura do trânsito de são paulo – o que eu chamaria, num momento de tormente, de pura neurose, d’alguém que faz questão, por amor, de controlar cada aspecto de minha vida – já me institui duma certa autoridade na matéria.
pois bem, saí as 9 horas. é um privilégio, se pensarmos que a cidade anda batendo recordes de trânsito quase que diários. são paulo nunca é capaz de agradar, nesse quesito, aqueles que vêm de fora e estão acostumados a viagens da ordem de 10 minutos de carro. aqui, tudo é contado já em termos de horas. mas quem nasce no inferno e lá se mantém teria como saber o que é o paraíso? uma hora de ônibus e metrô já me bastava, por mais que já sonhasse com os velhos apartamentos da Vila Buarque, e a futura estação de metrô, ali próximo da Rua Maria Antônia. agora não posso fazer nada.
pelo caminho, por vezes me acompanha parte de uma biblioteca que está por fazer em meu quarto. tenho o costume de dividir meus livros com meu irmão, mas a irmandade acaba quando se trata de da posse efetiva dos livros. tive a sorte de, por ser mais velho, ter arrebatado antecipadamente os clássicos da velha estante mal-aproveitada de meu pai, que olhava com orgulho o interesse do filho pelos livros. eu costumava reclamar de ter feito cópias de textos que posteriormente encontrava em casa. era um gasto de dinheiro que, aparentemente, não lhe trazia a maior preocupação. o prazer de quase haver previsto a futura utilidade dos livros superava o prejuízo em termos marginais. mas não consigo deixar de pensar o que faria caso seus filhos fossem dois brutamontes.
dessa vez, vinha alguns nomes que descobri, por acaso, na biblioteca da faculdade. precisava escrever um trabalho sobre edward said, e encontrei perdido ao seu lado uma cópia de portnoy’s complaint, do philip roth (mentira, foi um outro livro do autor; apenas não me recordo qual). não tinha o cartão para retirá-lo. gravei seu nome como se mandasse um sms para mim no celular, e lá ficou, até tê-lo encontrado num sebo, justamente na primeira semana de trabalho.
roth anda a me acompanhar em uma nova rotina, ou, se tivesse mais cara de pau, na minha primeira rotina. fato é que, até começar a trabalhar, nunca me senti aproveitando o tempo de maneira útil. é foda como as coisas àqueles que, em ilhas de prosperidade, ousam nadar contra a corrente. quer que diga que não? ser esquerdista-filhinho-de-papai é o caminho menos cínico, mesmo pensando estrategicamente, de se viver as contradições de são paulo. vale a pena abandonar o berço esplêndido de nossos apartamentos e perder acesso ao cartão de crédito? como importar livros da amazon? não há nada aqui sobre história do iraque!, já dizia roberto guedes. socializar a mesquinha miséria duma família de classe média não faz mais do que tirar-nos uma certa culpa cristã do sucesso. não padeço disso – de muitas outras coisas, não disso. no fim, o que fazemos, como jovens esquerdistas-filhinhos-de-papai, é garantir que não passaremos fome ao tocar projetos até o mundo amargurar cada alma idealista. polianos. ou talvez seja só eu, já torpe.
alex portnoy é um amontoado de traumas. excesso de amor, do querer bem, parece-me fazer tão mal quanto o seu contrário. não podia deixar de me remeter ao meu caso. mas como poderia eu assumir uma certa posição de vítima de trauma se, ao contrário desse sortudo filho-da-puta, eu não tenho uma família que não se cansa de lembrá-lo do orgulho que é a eles, da importância, para a família, que há em seguir por um certo caminho. mas não é necessário que alguém nos entorne da importância dos caminhos certos no capitalismo brasileiro para que eu me sinta a carregar o Copan inteiro nas costas, louco a me foder: basta que eu me lembre dos olhos de meu velho pai quando sentiu-se impotente numa noite em que eu precisei de carona, e não tinha tostões para pagar um táxi. a culpa é do sistema. capitalista? não, é do sistema transporte. o capitalismo nada tem a ver com isso, se não fosse por simplesmente impôr um grande conflito de ordem moral em meu pai, um velho esquerdista católico que nunca ligou pra dinheiro até que faltasse. não preciso ir tão longe para me lembrar da interdependência complexa do mundo. se a culpa de tudo é do sistema, então foda-se o sistema, não dá pra falar dele. a vida privada é a minha. assim como uma certa culpa, que eu juro em público não ser católica. o trabalho veio em hora certa. a culpa, não…
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é uma tormenta. é uma tormenta. uma semana de trabalho e pouco mais do que alguns dias e a rotina da morte ameaça tomar-me de espetáculo. é um trabalho divino, mas antes de tudo é um trabalho. trabalho, não, emprego. sou empregado. é distinto, muito distinto. tenho respeito de todos em minha família. já vi meus pais agora me chamarem de ‘trabalhador’. ‘como vai, trabalhador?’ quase como se todas as questões já tivessem sido resolvidas. antes de se ter uma ocupação, tratam-nos por alguém que desperdiça o tempo e os privilégios. mas é fato que eu sempre desperdicei grande parte do meu tempo. apenas era bom demais para aquilo que me exigiam. notas altas na escola? olhe, ganhei uma bolsa por desempenho! línguas? são quatro certificados, todos de Cambridge, e desde que usava fraldas me punham lá. dos esportes mas a questão que sempre me pareceu fundamental com relação a forma como lido com o tempo é sobre se realmente as coisas são tão difíceis assim como a maior parte das pessoas enxergam e eu sou bom demais, ou se, em minha bolha de prosperidade momentânea, nunca precisei dar a mínima.
nunca aprendi a dar duro para conseguir nada. entrar na poderosa usp foi facílimo, perto do esforço d’alguns. escolhi o curso mais concorrido da área de humanas. e como alguém pode falar que duas semanas de estudo de física são tão decisivos assim? como diabos minhas provas essenciais são quase sempre adiadas em datas decisivas? que critério de avaliação é esse que não vê que não dei-me o trabalho de ler inteiro sequer um texto de sala? quantas vezes terei de tensionar os limites de minha fortuna até descobrir o que preciso fazer para me foder por completo?
já me preocupa ter de conciliar tudo. os horários são ridículos, as matérias são poucas e nem pareço mais me importar com isso. carreira acadêmica é uma grande piada. há quem veja alguma seriedade nisso; certamente não é meu caso. tornar-se acadêmico é sempre o mesmo processo: quando o favor vira obséquio, passam o dia se masturbando. todo mundo tentando salvar o país, e o próprio rabo.
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más há tanto tempo pra se preocupar com absolutamente qualquer coisa que não creio ter muita energia, como se o excesso de temp olivre em si fizesse mal. e de fato, o faz. já me ensinaram um tal ditado que dizia algo como ’se quer que algo seja feito rapidamente, peça a alguém ocupado’. tempo é um produto único, que parece somente existir quanto mais gastamos dele. ou talvez seja só a minha constante sensação de perda. pra mim, o tempo dura como se fosse um eterno presente, até que me recordo o quanto já gastei sem nada ter feito. é um presente longo demais para me deixar ter um passado, um feito, um dito. e minha relação com o tempo então, ´e pautada por arrependimentos. não consigo entender as pessoas que afirmam não ter arrependimentos sobre absuolutamente nada. como se já tivessem resolvido suas questões internas de tal forma que aceitam seu presente e sua história de forma total. eu, apesar de andar eternamente à deriva, digo que só tenho arrependimentos. e não é nada fácil tê-los quanto não se tem nem 25 anos.
é horrível escrever sobre isso…